Sobre Tomar

Sobre Tomar

Abundam histórias de heroísmo, em Portugal. Histórias de gente indómita que resiste e combate com coragem inquebrantável; incontáveis episódios de uma natureza fortemente independente, de antes quebrar que torcer. Tomar teve a sua conta de combates, de valerosas figuras, de cercos bem e mal sucedidos, passou de mão pela força uma vez ou outra – mas, olhando com a distância ´ que o tempo permite, a sua história será mais marcada pela adequação às circunstâncias. Adaptar-se foi a forma de resistência encontrada por Tomar. Não é uma questão de complacência ou falta de coluna vertebral, será antes, arrisca-se, um misto de instinto de sobrevivência e da preguiça que nasce do conforto: pois quem acharia defeito num tão formoso e manso vale em decoroso namoro com a água? Que valores justificariam o sacrifício de tão doce viver? Poucos, foi-se achando. E crescia assim um cosmopolitismo reservado que a todos recebia, sabendo que o tempo faria a destrinça entre os que poderiam pertencer e os que, amando o novo, depressa se saciariam desta perenidade e intemporalidade que se sedimentaram na forma de ser da cidade. Se Tomar não acredita que é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma, acredita que é preciso que tudo fique na mesma quando há mudança. Não é (só?) imobilismo, é satisfação. Podem doer-lhe as articulações quando se torce mas, felizmente para nós e para si, pouco se quebrou.

 

Nenhum monumento poderia simbolizar melhor um tal espírito que o Castelo e o Convento de Cristo. Quem conta um conto acrescenta um ponto e o Convento é a história incremental por excelência. Uma mesma história, em sucessivas versões revistas e alargadas – talvez Tomar seja isso mesmo.

Suba-se ao Convento e olhe-se de lá a cidade: é transparente a relação de Tomar com o poder, num olha que não olha apenas aparentemente desinteressado, como uma criança que alarga o raio da sua brincadeira mas sem arriscar ir para lá do limite que a figura tutelar projeta. Tomar não vive “à sombra” do poder projectado pelas muralhas e pelo Convento – vive ad latere, paralelamente, numa familiaridade pouco latina em que ninguém se toca. Mesmo os símbolos, muitos e belos, que o poder secular e religioso foi semeando na malha da cidade foram apropriados ou reclamados pela forma de ser da cidade, tornando-se em símbolos disso mesmo, mais que das forças que os erigiram.

Encantador como o é o centro histórico da cidade, vale bem a pena explorar a parte de história mais curta (chamar-lhe nova seria enganador) e ver as faces que a cidade foi imaginando para si: sem arroubos, com um apego desassombrado (uma ou outra vez desinspirado, concede-se) por uma vida “normal”. Também aí se vê como é cómoda a escala da cidade, como é conveniente, como é fácil gerir o dia para poder parar num café quando apetece, como há uma tranquilidade e um tempo próprio, fora do tempo. Se se esforçar bastante, é possível ter um dia cansativo nesta cidade – mas não há volta a dar: em Tomar é fácil abraçar o ofício de descansar.

Tomar inventa pouco mas faz as coisas bem. Com exceção da doçaria, não há exatamente um prato típico – mas cozinha-se bem e generosamente. Faz-se o melhor que se pode. Poder-se-ia fazer mais? Muito provavelmente, mas o espírito que prevalece é o de fazer bem o que há para fazer. Por isso, também, se faz de quatro em quatro anos a Festa dos Tabuleiros, e não anualmente: para que seja bem feita. É esse o “excesso” da aparentemente ordeira cidade: sempre se entregou ao que fez e faz, seja decorar uma rua, fazer enchidos, assar um cabrito, fabricar papel ou panelas para as Fatias de Tomar.

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